Por que a vaca é saxã e o bife é normando
O animal tem nome inglês e a carne tem nome francês. Você vai reconhecer quase todas as palavras de carne de primeira — elas são latinas como as suas. O corte tem quase mil anos e ainda decide qual palavra soa simples e qual soa solene.
Por Dilnoza Yusufova · Linguist
No primeiro capítulo de Ivanhoé, Walter Scott faz um porqueiro e um bobo deduzirem uma regra do inglês: o bicho guarda o nome saxão enquanto vive e enquanto um saxão cuida dele, e recebe um nome normando assim que é levado ao salão e comido. Scott escreveu isso em 1819, sete séculos e meio depois da conquista que descrevia, e a observação se repete desde então, porque para um punhado de palavras ela está exatamente certa.
Em resumo
- Os nomes de animais vêm do inglês antigo; os de carne chegaram do francês depois de 1066.
- O mesmo corte atravessa todo o vocabulário: a palavra simples normalmente é germânica, a formal é francesa ou latina.
- Para quem fala português, a palavra familiar é quase sempre a do registro formal — e aí está a armadilha.
Os cinco pares
| O animal | A carne | Origem |
|---|---|---|
| cow, ox — inglês antigo cū, oxa | beef | francês antigo boef |
| pig, swine — inglês antigo swīn | pork | francês antigo porc |
| sheep — inglês antigo scēap | mutton | francês antigo moton |
| calf — inglês antigo cealf | veal | francês antigo veel |
| deer — inglês antigo dēor | venison | francês antigo venesoun |
Todos os animais da coluna da esquerda têm um nome que já estava em inglês antes de 1066. Todas as palavras da coluna do meio chegaram do francês depois.
Você reconheceu quase todas sem esforço, e é aí que a sua posição é peculiar: elas são latinas como as suas. Beef está em «bovino», pork é «porco», veal é «vitela», venison está em «venatório». Só mutton é opaco, e mesmo assim o francês antigo moton não tem descendente em português.
Mas note o que o português fez do seu lado, porque é o ponto interessante: a sua língua não separa o animal da carne. Diz-se «carne de boi», «carne de porco», «carne de carneiro» — o nome do animal vem dentro do nome da carne. «Vitela» é a exceção, e é justamente a palavra que corresponde a veal.
A dupla inglesa existe, portanto, porque o inglês já tinha uma palavra para o animal quando a palavra latina chegou — não porque o francês ou o português distinguissem coisa alguma.
O que de fato aconteceu, e quando
A versão bem arrumada — saxões nos campos, normandos à mesa, o vocabulário se partindo no dia do banquete — é uma história sobre 1066. As provas são mais lentas e menos espetaculares.
As palavras francesas não entraram em quantidade logo depois da conquista, mas ao longo dos séculos XIII e XIV, quando os descendentes dos conquistadores passaram ao inglês levando o seu vocabulário. Os sentidos de carne seguiram essa curva: nos registros mais antigos, beef e pork nomeiam o animal com a mesma facilidade com que nomeiam o prato, e a divisão de tarefas entre as duas palavras se fixa mais tarde. No tempo de Chaucer ela está lá; no século seguinte à conquista, ainda não.
O mesmo corte, em todo lugar
Os pares importam porque são um canto visível de algo bem mais vasto. O inglês passou quatro séculos absorvendo francês e, desde a Renascença, absorvendo latim diretamente. O resultado é um vocabulário em camadas, e as camadas pesam.
| Inglês antigo | Francês | Latim |
|---|---|---|
| ask | question | interrogate |
| kingly | royal | regal |
| rise | mount | ascend |
| end | finish | conclude |
| help | aid | assist |
Leia qualquer linha em voz alta e o padrão se ouve. A primeira palavra é a que se diz; a segunda, a que se escreve; a terceira, a que se escreve quando se quer passar por especialista. Nenhuma das três significa algo que as outras não pudessem dizer, e ainda assim nenhum falante nativo as trata como intercambiáveis.
simples, do dia a dia formal, distante
- I’ll ask him tomorrow.comum e completo
- The committee will question the witness.um procedimento, não uma conversa
- Police interrogated the suspect for six hours.todo o peso da instituição
Onde um falante de português tropeça
Aqui a sua língua lhe dá um presente e uma armadilha, e a armadilha é a mais custosa de todo o site em matéria de estilo.
O presente: você reconhece a camada normanda à vista. Quando um texto inglês lhe parece de repente fácil de ler, muitas vezes é porque está escrito na sua metade do vocabulário. E a tabela das três camadas tem, para você, duas colunas familiares: «questionar» e «interrogar» existem em português, e com mais ou menos o mesmo peso relativo.
A armadilha: é precisamente essa metade que se deve evitar por padrão. A palavra inglesa que parece com a portuguesa é quase sempre a do registro formal:
| você pensa | você escreve | deveria ser |
|---|---|---|
| começar | commence | begin, start |
| terminar | terminate | end, finish |
| obter | obtain | get |
| necessitar | necessitate | need |
| solicitar | solicit | ask for |
| adquirir | acquire | get, buy |
| residência | dwelling | home |
| demonstrar | demonstrate | show |
| utilizar | utilize | use |
A palavra da direita não é mais informal: é mais normal. Quem fala inglês e lê I would like to commence by thanking you entende tudo e ouve um formulário.
E a sua língua agrava isso de um jeito próprio. Em português, «terminar», «utilizar» e «demonstrar» são palavras inteiramente comuns — você as diz no balcão da padaria. Em inglês, terminate, utilize e demonstrate pertencem ao contrato e ao relatório. A sua intuição de registro não acompanha, porque na sua língua essas palavras não carregam peso nenhum.
Três delas são falsos amigos de verdade, e não apenas de registro:
- assistir → watch ou attend. To assist quer dizer ajudar. I assisted the meeting diz que você ajudou a reunião.
- realizar → carry out, hold, do. To realize quer dizer dar-se conta. I realized the project diz que você percebeu o projeto.
- pretender → intend, plan. To pretend quer dizer fingir. I pretend to help you diz que você finge ajudar.
Os três seguem o mesmo mecanismo desta página levado um passo além: a palavra viajou do latim para as duas línguas e mudou de sentido em uma delas.
A regra prática, para você, se inverte. Quem fala inglês aprende a preferir a palavra curta porque conhece as duas. Você precisa aprender a desconfiar da palavra que já conhece — e a ir buscar a germânica, que não lhe diz nada e que é, ainda assim, a certa em quatro frases de cinco.
O que fazer com isso
A utilidade prática está na escolha. O inglês lhe dá duas ou três palavras para quase cada ideia, e a escolha entrega o registro antes do fim da frase. Quem recorre por padrão à palavra latina escreve uma prosa que soa oficial e diz pouco: o tom de qualquer relatório ruim.
Errado: I would like to commence my letter by thanking you. certo: I would like to begin by thanking you.
A palavra latina não é mais polida, só mais pesada. Em quase tudo o que se escreve, a mais curta das três é a que serve — e, para quem fala português, começar atrai para a errada.
Errado: We need to ascertain whether the room is free. certo: We need to find out whether the room is free.
Três sílabas trocadas por duas palavras, e nada se perde. Só se vai buscar a palavra longa quando ela diz o que a curta não consegue.
Errado: The dish contains cow. certo: The dish contains beef.
O inglês separa o animal da carne. Nomear o animal num menu é o que torna o desencontro audível — em português ninguém notaria, porque «carne de boi» traz o animal no nome.
O inverso também é erro. Terminate, purchase e dwelling existem porque os contratos precisam de palavras com bordas nítidas que end, buy e home não têm. A regra não é «use sempre a palavra curta», mas «use a curta a não ser que a longa faça alguma coisa».
Verifique
Confie no ouvido
4 pairs
Quatro pares. Em cada um, escolha a palavra que entrou no inglês pelo francês ou pelo latim, e não pelo inglês antigo. Para você isso deve ser rápido — é o que interessa.
Qual palavra entrou com os normandos?
**Commence** vem do francês antigo *comencier*. **Begin** vem do inglês antigo *beginnan*.
Qual das duas é a palavra inglesa mais antiga?
**Freedom** vem do inglês antigo *frēodōm*; **liberty** chegou do francês *liberté* no século XIV.
Qual delas um senhor normando teria reconhecido?
**Mansion** vem do francês antigo *mansion*; **house** vem do inglês antigo *hūs*.
Qual palavra é germânica?
**Sweat** vem do inglês antigo *swǣtan*. **Perspire** chegou do latim no século XVII, e a delicadeza só lhe veio depois.
O que guardar
- Animal inglês, carne francesa: nos cinco pares mais antigos, não em todos os de hoje.
- Onde o inglês oferece duas ou três palavras para a mesma ideia, a germânica normalmente é a simples.
- Para você a regra se inverte: a palavra que parece com o português é a que se deve evitar por padrão.
Questions readers ask
As pessoas comuns realmente pararam de falar inglês?
Não. O inglês continuou sendo a língua da maior parte do país todo esse tempo. O que mudou foi a língua que governava a corte, o direito e a cozinha de uma casa grande — e são precisamente os domínios pelos quais as palavras francesas entraram e nos quais ficaram.
O inglês é, então, uma língua românica?
Não. A gramática e as palavras mais frequentes — the, is, and, have, man, wife, eat — são germânicas. A camada emprestada é enorme, mas ela repousa sobre uma armação inglesa.
Qual palavra usar, então?
Na fala e em quase tudo o que se escreve, a simples. As palavras francesas e latinas ganham o seu lugar em textos jurídicos, universitários e técnicos, onde o que conta é a precisão delas e não o peso.
Fontes
- Scott, W. Ivanhoe. Edimburgo, 1819 — capítulo 1, onde a observação ficou célebre.
- Baugh, A. C., e Cable, T. A History of the English Language. 6ª ed. Londres: Routledge, 2013.
- Crystal, D. The Stories of English. Londres: Allen Lane, 2004.
- Oxford English Dictionary, entradas beef, mutton, pork, veal.