O que aconteceu com literally
Uma palavra que quer dizer «não em sentido figurado» serve para dizer «em sentido figurado, mas forte». Parece degradação. É a vida comum de um intensificador.
Por Dilnoza Yusufova · Linguist
De todas as reclamações sobre o inglês, esta volta com a maior regularidade: literally teria passado a significar o seu contrário, e os responsáveis seriam jovens, descuidados e recentes. Dois desses três pontos são falsos. O uso é mais antigo que a reclamação, mais antigo que o telefone, e aparece em autores que ninguém acusa de descuido.
Em resumo
- Literally como intensificador está atestado desde o século XVIII, não desde a internet.
- Very, really, truly e terribly fizeram todos o mesmo trajeto, do sentido para a ênfase.
- Ainda assim é melhor evitá-lo na escrita formal — não por ser errado, mas porque o leitor para para discutir com a palavra.
A palavra faz isso há dois séculos
O uso intensificador está atestado desde o século XVIII e atravessa o XIX em companhia perfeitamente respeitável. O exemplo mais conhecido abre um conto de Dublinenses, de Joyce: Lily, a filha do zelador, estava literally run off her feet — e não estava, evidentemente, já que continuava de pé ao dizê-lo.
É isso que os intensificadores fazem
As palavras que marcam grau se gastam. Quem fala agarra uma palavra forte para acrescentar força, a força se apaga pela repetição, e a palavra acaba como marca geral de muito. Os linguistas chamam isso de desbotamento, e o inglês tem uma fileira inteira de exemplos bem à vista.
| Palavra | O que ela queria dizer | O que ela faz hoje |
|---|---|---|
| very | verdadeiro (francês antigo verrai) | grau — a very old house |
| really | na realidade | grau — really cold |
| truly | conforme a verdade | grau — truly awful |
| terribly | de modo a causar terror | grau — terribly kind |
| awfully | de modo a encher de pavor | grau — awfully nice |
| incredibly | impossível de crer | grau — incredibly simple |
| literally | à letra, não em sentido figurado | grau — literally starving |
Todo intensificador inglês é uma palavra que queria dizer alguma coisa, gasta por gente que procurava ser enfática.
Very é o caso mais nítido. Vem do francês antigo verrai, verdadeiro, e no inglês médio a very king era um rei de verdade, um rei verdadeiro. Hoje já não quer dizer nada além de em alto grau, e o seu sentido de origem só sobrevive em fósseis como the very thing e in very truth. O trajeto levou cerca de quatrocentos anos e não levantou nenhuma objeção que alguém tenha guardado.
- He is a very friend to me.século XV: um amigo verdadeiro
- That is the very book I wanted.o sentido antigo, ainda vivo numa expressão fixa
- It was very cold.o sentido moderno: o grau, e nada mais
Por que este chama atenção
Três coisas fazem de literally um alvo onde terribly não é.
Ele se contradiz, então a objeção é fácil de formular. Pertence a um registro que já se tende a corrigir: a fala dos jovens. E entra num pequeno clube de palavras inglesas que significam uma coisa e o seu contrário: sanction, que aprova e pune; dust, que tira o pó e põe; oversight, que é ao mesmo tempo a supervisão e a falha em supervisionar.
O que dizer a quem aprende, e o que fazer você mesmo
A afirmação histórica e o conselho prático apontam para direções diferentes, e dizer as duas não é se contradizer.
A histórica: o uso é padrão, antigo, e produzido pelo mesmo processo que deu very e really. Quem ouve dizer que é simplesmente errado vai ficar perplexo diante de cada romance que ler.
A prática: num relatório, num trabalho ou num e-mail que precisa convencer, tire-o. Não porque seja erro, mas porque uma parcela mensurável dos seus leitores vai parar na palavra e começar a redigir uma resposta sobre ela. Um advérbio que lhe custa a atenção do leitor falhou na única tarefa que tinha.
Onde um falante de português tropeça
Aqui quase nada atrapalha, e a razão é interessante: o português faz exatamente a mesma coisa, com a mesma palavra, e com a mesma briga em volta.
«Eu literalmente morri de rir», «literalmente explodi», «foi literalmente uma loucura». O uso intensificador de literalmente é corrente em português, e há quem reclame dele nos termos exatos de um purista anglófono. Se esta página lhe parece familiar, é porque ela é.
E os seus intensificadores estão igualmente desbotados. A tabela inglesa tem uma gêmea portuguesa:
| português | o que queria dizer | o que faz hoje |
|---|---|---|
| muito | do latim multum, em quantidade | grau |
| bastante | o que basta, o suficiente | grau — bastante caro |
| bem | de modo bom | grau — bem difícil |
| terrivelmente | de modo a causar terror | grau — terrivelmente gentil |
| horrivelmente | de modo a causar horror | grau — horrivelmente simpático |
| horrores | horrores, no plural | grau — gostei horrores |
| demais | em excesso | grau — bom demais |
Horrores é o melhor exemplo de desbotamento das duas línguas juntas: «gostei horrores» não guarda nenhum horror, exatamente como very não guarda nenhuma verdade. E terrivelmente gentil é a mesma contradição interna de terribly kind, com o mesmo resultado — ninguém se incomoda.
Note bastante: ela veio de «bastar», isto é, «o suficiente», e hoje quer dizer «bem mais que o suficiente». O sentido original foi engolido pelo grau, e nenhum manual chama isso de erro.
E palavras que significam uma coisa e o seu contrário você também tem:
| palavra | um sentido | o contrário |
|---|---|---|
| alugar | dar em locação | tomar em locação |
| sancionar | aprovar uma lei | punir com sanções |
«Aluguei a casa» não diz se você é o dono ou o inquilino, e ninguém pergunta, porque o resto da frase resolve. O argumento desta página — que uma língua tolera a ambiguidade quando o contexto a desfaz — se verifica, portanto, sem sair do português.
A sua língua tem menos desses casos que o francês ou o inglês, e por isso vale notar o mecanismo mais do que a lista: o que importa é que a ambiguidade sobrevive exatamente onde não custa nada.
E uma observação sobre a etimologia de very, que lhe diz respeito diretamente: é uma palavra latina. Very vem do francês antigo verrai, que vem de verus — o mesmo antepassado de «verdade», «verídico» e «veraz». A página conta, portanto, sem dizer, como uma palavra latina entrou no inglês com o sentido de «verdadeiro» e perdeu todo o sentido em quatrocentos anos, enquanto a sua o guardava. É a mesma camada normanda que descreve o artigo sobre cow e beef.
O conselho prático se traduz tal e qual. Num relatório em português, «literalmente» também não é recomendado, e pela mesma razão: não por ser errado, mas porque parte dos seus leitores vai parar nele.
Errado: The report literally transformed our thinking. certo: The report completely changed our thinking.
Num documento, o intensificador convida a discutir a palavra em vez do assunto. Qualquer advérbio simples faz o trabalho sem a briga.
Errado: She was literally the first woman to hold the post. certo: She was the first woman to hold the post.
Aqui a frase já é literal. A palavra não acrescenta nada, e esse é o modo mais comum de desperdiçá-la.
Errado: He literally exploded with anger. certo: He exploded with anger.
A metáfora já faz o trabalho e o intensificador se senta em cima dela. Tirá-lo deixa a frase mais forte, não mais fraca.
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4 pairs
Quatro perguntas sobre sentidos antigos e novos.
Qual destas palavras queria dizer verdadeiro e não extremamente?
**Very** vem do francês antigo *verrai*, verdadeiro. *A very king* era um rei de verdade — e ninguém protesta contra o uso moderno.
Qual uso é o mais antigo na escrita?
O sentido de origem vem primeiro; o uso intensificador está atestado desde o século XVIII — antigo, mas não o mais antigo dos dois.
Qual palavra ainda significa uma coisa e o seu contrário?
**Sanction** aprova e pune ao mesmo tempo, conforme a frase. O inglês guarda várias dessas e passa bem.
Qual frase um revisor cuidadoso deixaria no lugar?
A primeira é o sentido de origem, usado com exatidão. A segunda é o intensificador, e numa prosa revisada é ela que salta.
O que guardar
- O literally intensificador tem dois séculos e meio, e a mesma coisa aconteceu com very muito antes.
- Desbotar é o que os intensificadores fazem: as palavras fortes se gastam e viram marcas de grau.
- Na escrita formal, evite-o — a objeção é sobre a atenção do seu leitor, não sobre a correção.
Questions readers ask
Então a reclamação é simplesmente falsa?
A história está do lado do uso; o conselho prático está do lado da reclamação. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, e o trabalho de um linguista é dizer qual afirmação está em jogo — uma sobre a língua, ou uma sobre o que funciona num texto determinado.
O sentido de origem vai desaparecer?
É pouco provável. O contexto separa os dois quase perfeitamente: ninguém precisa perguntar se um prédio foi literalmente destruído. A ambiguidade sobrevive onde não custa nada, e é por isso que o inglês tolera que sanction e dust façam o mesmo truque.
O que ensinar a quem aprende?
Os dois sentidos, e o aviso de que o segundo irrita um grupo de leitores preciso e barulhento. Isso é mais útil que proibi-lo, porque ele vai encontrá-lo em todo lugar.
Fontes
- Oxford English Dictionary, entrada literally, acepção 1c e a sua nota sobre o uso intensivo.
- Bolinger, D. Degree Words. Haia: Mouton, 1972.
- Joyce, J. Dubliners. Londres, 1914 — a primeira frase de «The Dead».