Como soar educado sem dizer please
Um please colado numa ordem a deixa ordem. O português põe a sua cortesia no «senhor», no condicional e nos diminutivos; o inglês não tem nenhum dos três, e precisa passar tudo pela forma do verbo.
Por Dilnoza Yusufova · Linguist
Em resumo
- Please torna uma ordem educada, mas não a transforma em pedido.
- Um pedido é uma pergunta: could you, would you, do you think you could.
- A distância se constrói com modais no passado, atenuadores e desculpas: quanto mais longa a estrutura, maior o favor pedido.
A palavra não é a coisa
Quase todo curso ensina please como a palavra educada, e ela é, mas age sobre a frase sem mudar o tipo de frase que ela é. Send me the file, please é um imperativo com uma cortesia pendurada. De uma gerente para a equipe, numa placa ou numa receita, isso é normal. De um desconhecido pedindo um favor, cai mal, e nenhum please conserta.
O que o inglês faz de verdade é mudar a forma da frase.
imperativo + please
Uma ordem suavizada
Correta e frequente, mas ainda diz ao outro o que ele deve fazer.
Send me the file, please.
- instruções
- placas
- de um chefe para a equipe
- um pedido no balcão
pergunta + modal
Um pedido
Deixa ao outro uma porta de saída para dizer não. É isso que o torna um pedido.
Could you send me the file?
- colegas
- desconhecidos
- alguém acima de você
- tudo o que é facultativo
A escada
As estruturas se arrumam por peso. Mais longa e mais indireta quer dizer um favor maior, mais distância, ou as duas coisas.
| Tamanho do favor | O que dizer | Onde serve |
|---|---|---|
| Mínimo, faz parte do trabalho | Can you send it over? | Um colega próximo |
| Comum | Could you send it over? | Quase em todo lugar |
| Uma interrupção de verdade | Would you mind sending it over? | Alguém ocupado ou acima de você |
| Um favor de verdade | I was wondering if you could send it over. | Um desconhecido, ou um pedido grande |
| Você espera um não | I don’t suppose you could send it over? | Pouco provável, dito de leve |
próximo, de rotina distante, um favor de verdade
Dois recursos fazem quase todo o trabalho desta escada. O primeiro é o passado usado para distância e não para tempo: could, would, was wondering. Nada disso aconteceu no passado; a forma de passado está simplesmente mais longe do aqui e agora, e esse afastamento se lê como deferência. O seu condicional faz exatamente a mesma coisa — «você poderia?» contra «você pode?».
- Can you give me a hand?presente: próximo, de rotina
- Could you give me a hand?forma de passado sem passado: um pouco mais de distância
- I was wondering if you could give me a hand.a distância, alojada numa oração inteira
- I don’t suppose you could give me a hand?conta-se com o não, e diz-se de leve
O segundo é a atenuação: as palavrinhas que fazem um pedido parecer menor do que é. Just, a bit, a quick, sort of, possibly.
- Could I just ask you something?o pedido encolhe
- Could I borrow it for a bit?o incômodo também
- Have you got a quick minute?um minuto já é curto; quick o encurta mais
Antes de pedir
O inglês muitas vezes não começa pelo pedido. Começa verificando se a pessoa está disponível, e só depois chega ao assunto.
- Sorry to bother you — have you got a minute?bater antes de abrir a porta
- Is this a good time? I wanted to ask about the budget.a permissão primeiro
- Quick one — do you know where the key is?avisa de antemão que o pedido é pequeno
Pular essa etapa é uma das razões mais frequentes para alguém com inglês fluente continuar soando brusco. A gramática está certa; é a ordem que falta.
Dizer não
As recusas seguem a mesma lógica ao contrário: dar uma razão, lixar a aresta, e deixar a relação intacta.
- I’m afraid I can’t make Thursday.a almofada padrão
- Unfortunately we’ve already booked the room.formal, na escrita
- That might be tricky — can I check and come back to you?um não que chega devagar
- I’d love to, but I’m away that week.o lamento faz o trabalho
Onde um falante de português tropeça
Você chega bem equipado, e isso precisa ser dito primeiro. A escada inteira existe em português, e mais ou menos no mesmo lugar:
| português | inglês | posição na escada |
|---|---|---|
| Você pode me mandar? | Can you send it over? | próximo |
| Você poderia me mandar? | Could you send it over? | comum |
| Você se importaria de me mandar? | Would you mind sending it over? | uma interrupção |
| Será que você poderia me mandar? | I was wondering if you could send it over | um favor de verdade |
| Imagino que você não possa me mandar, né? | I don’t suppose you could send it over? | espera-se um não |
E o seu condicional faz exatamente o trabalho do passado inglês: «você pode» contra «você poderia» é can contra could, palavra por palavra. Na fala brasileira o imperfeito faz o mesmo: «você podia me mandar?» é igualmente cortês.
O seu «será que» merece destaque: é um atenuador dedicado, sem equivalente em francês nem em russo, e ele ocupa precisamente o degrau de I was wondering if. Se você pensa «será que você poderia», a estrutura inglesa longa sai naturalmente.
E «eu quero» contra «eu gostaria» é want contra would like — o segundo erro da lista não deveria lhe acontecer, já que «eu quero falar com o gerente» é tão seco em português quanto em inglês.
Mas você perde dois dos seus três instrumentos, e esse é o problema real.
O primeiro é o tratamento. A cortesia portuguesa se apoia em grande parte na escolha entre «você» e «o senhor» ou «a senhora». Essa escolha põe distância antes mesmo de o verbo chegar, e carrega uma parte enorme do trabalho. O inglês tem um you só.
Ou seja: tudo o que o seu pronome carregava precisa passar para a estrutura do verbo. Quem traduz «O senhor poderia me enviar o arquivo?» obtém a frase certa; quem traduz «Me manda o arquivo, por favor» — uma frase perfeitamente aceitável em português, porque o tom e o «por favor» bastam — obtém em inglês um imperativo nu que nada conserta.
É o primeiro erro da lista, e é o mais custoso desta página, porque não se vê: a frase está gramatical.
O segundo é o diminutivo, e esse é só seu. O português brasileiro atenua com diminutivos, e com muita naturalidade:
| português | inglês natural |
|---|---|
| uma perguntinha | a quick question |
| um minutinho | just a minute |
| um favorzinho | a small favour |
| rapidinho | just / quickly |
| uma ajudinha | a bit of help |
O inglês não tem diminutivo produtivo: não existe sufixo que faça com question o que o «-inha» faz com «pergunta», e a little question soa como uma pergunta de pouca importância, não como um pedido modesto. Toda a carga do seu «-inho» tem de ir para just, a bit e a quick, que são os atenuadores da seção acima. Se você reconhecer o diminutivo como atenuador — e não como tamanho —, a tradução fica mecânica.
«Favor» e «queira» viram o imperativo com please, e isso é boa notícia. O português tem fórmulas próprias para a instrução educada; o inglês só tem please mais o imperativo, e é exatamente o que as placas pedem:
| português | inglês |
|---|---|
| Favor aguardar | Please wait |
| Favor não tocar | Please do not touch |
| Pede-se fechar a porta | Please close the door |
| Segue em anexo | Please find attached |
As placas e os e-mails de serviço usam, portanto, o imperativo em inglês. É a quarta pergunta do exercício abaixo.
O risco inverso é a cortesia em excesso, e ele ronda você. O português de escritório é mais pesado que o inglês de escritório. «Venho por meio desta solicitar» não tem equivalente inglês do mesmo comprimento: a frase normal é Could you send me…. Traduzir o peso português produz um inglês que soa obsequioso, o que não é a mesma coisa que educado.
| português | inglês natural |
|---|---|
| Venho por meio desta solicitar… | Could you… |
| Gostaria de solicitar a gentileza de… | Could you… |
| Fico no aguardo | Hope to hear from you |
| Agradeço desde já | Thanks in advance |
| Atenciosamente | Best regards |
| Prezado senhor | Dear… |
E dois falsos amigos entre os atenuadores:
- eventualmente não dá eventually (= finalmente) mas possibly.
- atualmente não dá actually (= na verdade) mas currently.
Para a recusa, em troca, você já tem as construções. «Infelizmente», «vai ser complicado», «eu adoraria, mas»: as três correspondem quase palavra por palavra a unfortunately, that might be tricky e I’d love to, but. A única a aprender é I’m afraid, que não tem forma portuguesa equivalente e que é a almofada mais comum de todas.
Erros a evitar
Errado: Send me the report, please. (a um desconhecido) certo: Could you send me the report?
Please não muda o modo do verbo. A frase continua um imperativo, e para quem não lhe deve nada ela soa como instrução.
Errado: I want to speak to the manager. certo: I’d like to speak to the manager.
Want apresenta o seu desejo como um fato. Would like o apresenta como preferência, o que deixa espaço para uma resposta — exatamente a distância entre «eu quero» e «eu gostaria».
Errado: Give me a coffee, please. certo: Could I get a coffee, please?
No balcão, o imperativo se entende mas é seco, como «me dá um café» dito sem tom nenhum. A pergunta custa duas palavras e muda a troca inteira.
Errado: No, I can’t come on Thursday. certo: I’m afraid I can’t make Thursday.
O inglês quase nunca recusa a seco. I’m afraid, unfortunately e I’m not sure I can fazem o trabalho que o seu «infelizmente» e o seu «vai ser difícil» fazem em português.
Verifique
Confie no ouvido
4 pairs
Quatro situações. Escolha a versão que serve: a mais longa não é sempre a certa.
Você precisa que um colega revise um documento hoje. Qual você escolhe?
Uma pergunta deixa espaço para o não. O imperativo não — e a palavra **please** não mudaria isso.
Você pede a um desconhecido algo que vai lhe tomar tempo.
Quanto mais longa a estrutura, maior o favor para o qual ela foi feita. O passado mais o atenuador põem distância em volta do pedido.
Você recusa um convite do seu chefe.
**I’m afraid** é a almofada padrão para uma má notícia. Sem ela, a recusa soa como reprovação.
Uma placa na porta de um museu.
As placas e as instruções são o domínio do imperativo, como o seu «Favor não tocar». Aqui o indireto seria cômico, não educado.
O que guardar
- Transforme a ordem em pergunta. Só essa mudança faz mais do que qualquer palavra acrescentada.
- Os modais no passado marcam distância, não tempo: could, would, I was wondering.
- Diga não com uma almofada: I’m afraid, unfortunately, I’m not sure I can.
Questions readers ask
Então eu paro de dizer please?
Não. Please acompanha também os pedidos — could you send me the file, please — e é obrigatório nas instruções que precisam continuar no imperativo: please take a seat. O que ele não faz é substituir a pergunta.
Isso é só britânico?
Os recursos são comuns às variedades; o que muda é a quantidade. O inglês britânico atenua mais e recusa com mais rodeios; o americano se contenta com pedidos mais curtos. Nenhum é mais grosseiro, e os dois usam a mesma gramática.
Dá para ser educado demais?
Sim, e esse é o risco próprio de quem fala português. I was wondering if you could possibly perhaps help me at all soa ansioso em vez de atencioso, e transforma um pedido pequeno num grande. Ajuste a estrutura ao tamanho do favor.
Fontes
- Brown, P., e Levinson, S. C. Politeness: Some Universals in Language Usage. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.
- Leech, G. The Pragmatics of Politeness. Oxford: Oxford University Press, 2014.